Metáfora e Resistência: o estudo das canções do álbum Tropicália ou Panis et Circenses em sala de aula

Trabalho apresentado no 17o Congresso de Língua Portuguesa

Objetivo:

✭ Discutir a relevância do estudo das metáforas de álbum "Tropicália ou Panis et Circenses" em sala de aula em uma escola americana na cidade de São Paulo;

✭ Mostrar a necessidade dos alunos entenderem as configurações políticas e as tensões sociais no Brasil entre 1964 e 1968 para a efetividade dos diálogos com os efeitos de sentidos produzidos pelas metáforas;

✭ Colocar-se como um contraponto aos debates dentro da comunidade escolar sobre a despolitização das práticas em sala de aula, principalmente ao debate promovido por movimentos civis como o "Escola Sem Partido".



sobre o autor e nós

Desde que o produtor Harvey Weinstein foi denunciado por múltiplos assédios sexuais, a indústria cinematográfica hollywoodiana vive em estado convulcionante. Em declarações a jornais, em hashtags (#metoo), e em protestos no Globo de Ouro, as atrizes escancararam as agressões, apoiaram  as vítimas e as empoderaram . A violência contra a mulher deixou de ser anedótica ou parte do imaginário sobre os bastidores das relações entre as atrizes e o cinema americano e passou a ser mais uma trincheira na luta das mulheres por dignidade, direitos e segurança.

O tiro acertou o alvo, Weinstein foi demitido; mas ricocheteou em Woody Allen. Se a ironia, o humor, a fotografia, o ambiente novaiorquino e o jazz marcam a obra do autor, o amor e o ódio marcam sua figura pública. Muitos o amam pela seu porte franzino, frágil e desajeitado, seus óculos e suas neuroses clichês; mas outros o odeiam (e o repugnam) pelo relacionamento com a filha adotiva de sua ex-mulher e, agora, pela denuncia de assédio sexual da sua também filha adotiva, Dylan Farrow. Porém, enquanto Weinstein uniu, Allen dividiu: atrizes como Diane Keaton e Kate Winslet o defendem. Por sua vez,  atrizes como Ellen Pagen, Rebeca Hall o atacam e o criticam. Já Selena Gomes parece sofrer no meio do fogo cruzado.



Woody Allen
O caso de Woody Allen remete imediatamente ao caso de Roman Polanski. O diretor polonês é foragido da justiça americana desde 1978, quando foi condenado por abuso sexual de uma menina de 13 anos em uma festa organizada pelo ator Jack Nicholson. Aos olhos do público, tanto Woody Allen como Polanski parecem não ter pago pelos crimes; pois, enquanto um não está sendo alvo de nenhuma investigação, o outro ainda vive solto (embora proibido de entrar nos EUA). Na aparente ausência de justiça, o público parece ter montado seu próprio tribunal e ter dado a própria sentença: o artista pagará a pena.

O público, geralmente, constrói uma trindade na relação pessoa física/autor/obra. A pessoa física confunde-se com o autor e a obra confunde-se com a vida ou o psicológico da pessoa física. Nesse emaranhado do sublime da obra com a vida da pessoa física, o público acaba elevando a pessoa que escreveu a obra ao status de herói. Porém, quando a pessoa física comete um ato moralmente ou eticamente condenável, não só a pessoa física é destituída da condição de ídolo, como a obra é rebaixada e, de sublime, passa a ser vulgar. Já que, no final, o púbico não tem o poder de condenar a pessoa física, o público acaba condenando o autor e a obra com o boicote. Pune-se a obra, pune-se o autor, mas a pessoa física escapa ilesa.

Para que a justiça seja feita (se é que muitas vezes o desejo é de justiça ou linchamento) é preciso romper com essa trindade. Bakhtin, em o Autor e e a Personagem [Estética da Criação Verbal, Martins Fontes], afirma que o autor só existe dentro do universo da obra, dando às personagens acabamento e, às narrativas, unidade. Acabamento, para Bakhtin, é maneira como o eu completa-se a partir do excedente de visão do outro. Na teoria bakhtiniana, o outro consegue enxergar em mim elementos que eu não tenho acesso e, ao tornar-me sensível à essa visão, eu consigo entender-me de forma mais plena. No contato entre duas pessoas 'físicas' (ou, seja, que não estejam na obra de arte), dizer que esse 'outro' tem uma visão excedente sobre mim não significa que ela sabe de todas minhas características. Ao contrário, o acabamento que vem do outro é apenas relacionado a um aspecto da minha vida. No final, é nesse aspecto em que Bakhtin diferencia o autor de uma pessoa física. Enquanto de uma pessoa física para outra o acabamento é dado em apenas alguns aspectos, o autor é aquele quem consegue dar à personagem uma totalidade, ou seja, a personagem constitui-se a partir do acabamento total dado pelo autor, pois é ele quem tem acesso a todos os elementos constituintes da personagem.

Em uma narrativa, as personagens tocam-se o tempo todo. Há contatos que são fugazes, da mesma maneira que há contatos que são mais determinantes para as personagens. A maneira como as personagens se tocam e a maneira como ocorre o cruzamento das narrativas é determinada pelo autor, que nos fará enxergar essas narrativas em forma de um romance ou de qualquer outro gênero. Em outras palavras, é o narrador quem organiza e dá formato à maneira como absorvemos o conteúdo estético de uma obra. A questão do autor, colocada da forma como foi até agora, tem-se a impressão que não passa de um elemento estruturante apenas. Entretanto, a maneira como o autor manipula os elementos linguísticos na obra faz nascer o estilo, particular e único. A medida em que vamos reconhecendo o mesmo estilo nas mais diversas narrativas, mas reconhecendo também marcas concretas de autoria. Assim, como podemos perceber, o autor acontece na obra de arte e não fora dela.

Fora da obra de arte, para a teoria bakhtiniana, há apenas a pessoa física. A pessoa física, o sujeito que escreve não participa do mundo da obra de arte, pois ele apenas está inserido no nosso mundo real. A pessoa física é aquela que compartilha conosco do mesmo momento histórico e está sujeita às mesmas regras éticas, morais e sociais, ou seja, uma pessoa igual a nós. Buscar na pessoa física informações sobre a obra de arte  é entender que as únicas informações que serão obtidas são sobre o processo de escrita e não sobre as significações do texto. Para Bakhtin, a busca por informações sobre o autor só é relevante para aqueles que querem escrever uma biografia sobre o autor ou, então, moralizar a obra.

A questão da moralização da obra de arte é um aspecto central aqui. Não separar a pessoa física Polanski/Woody Allen dos autores Polanski/Woody Allen é correr o risco de reduzir a experiência estética na apreciação de suas obras; pois, no final das contas, vemos apenas o que é biografia e acabamos não dando espaço para a obra mostrar a sua grande riqueza, o diálogo com outras obras de arte. Corre-se, ainda por cima, o risco de impor às obras de arte os valores morais da nossa sociedade. Ora, a obra não deve estar submissa às regras morais; mas, ao contrário, deve tensioná-las e questioná-las. As normas éticas não devem ser aplicadas na obra estética.

A luta por igualdades é complexa e de muitas frentes e a via do campo simbólico é uma delas. Como tenho pontuado ao longo do texto, devemos ser bastante criteriosos. A liberdade que damos para a obra, para o autor, não é a liberdade que damos para a pessoa física. Ao contrário da obra, a pessoa física, o sujeito escrevente está sujeito às normas éticas e legais do nosso mundo e deve ser questionado caso as descumpra. Woody Allen e Polanski devem punidos na medida exata de seus crimes e o empoderamento das vítimas e sensibilização da sociedade são caminho.

Manisfesto sobre o Escola sem Partidos

Desde as eleições de 2002, a sociedade brasileira está passando por um processo de profunda transformação. As políticas adotadas pelo governo petista ‐ independente de sua real eficácia ‐ fizeram com que nos entendêssemos como sujeitos portadores de direitos. Cidadania deixou de ser estar a mercê de programas assistencialistas para termos direitos ‐ à moradia, à renda mínima, à políticas afirmativas, direito de acesso ao ensino superior ‐ consolidados. De lá pra cá, entendemos que os projetos assistencialistas tinham baixo impacto coletivo e eram mais eficientes em suavizar as contradições sociais do que em revertê‐las.


As propostas de Redação e os novos tempos

As últimas duas propostas de redação, tanto do Enem como da Fuvest exigiram dos estudantes mais do que conhecimento dos fatos, exigiram deles um conhecimento do espírito de sua época. Entender e interpretar fatos já não é o suficiente, é preciso ter uma consciência transitiva critica de seu tempo.

#somostodosprofessores

"Vandalismo" é um termo que faz referência ao povo vândalo, um dos povos bárbaros que invadiram e atacaram o império romano. Na wikipedia, está escrito ainda que o pintor Gustave Courbet definiu como vandalismo a destruição de monumentos que simbolizam "guerra e conquista".

Professor, posso usar o Facebook em sala de aula?



Desde a sua aurora, o uso dos computadores e das redes sociais colocaram os professores diante de paradigmas. Para uns, as redes sociais, a facilidade de acesso às informações promovida pela internet, decretaram a morte do professor, reduzindo seu papel à mero intermediário entre o aluno e o objeto cognicível. Para outros, se não a morte, as redes sociais e a internet foram uma navalhada no rosto do professor, ameaçando-o e desconfigurando-o, pois a concorrência contra a sedução dos estímulos constantes do recursos virtuais contra quem dispõe apenas de giz, lousa e apostila é desleal. Há, ainda, os que previam que os recursos tecnológicos resignificariam as relações humanas e, como uma onda, revolucionariam a sala de aula.


Na verdade, o caminho da esquerda

Essa é uma reprodução de uma cartilha didática do final da década de 40, a Meninice. Além da qualidade discutível dos textos, a cartilha dizia: "o caminho da direita é o melhor".










e a responsabilidade de imprensa?

Depois dos ataques ao Charlie Heddo, do leitor do jornal de empregos ao editor do Planete Diário, não há um único sujeito que não tivesse falado, ou melhor, bradado, de pé num caixote, defendendo a liberdade de imprensa e expressão. É um sentimento unânime e, como diria Nélson Rodrigues, carrega uma burrice intrínseca. Há um texto do Sakamoto que problematiza essa questão e que merece ser lido.

Na frança, muitos foram às ruas, arriscaram-se pela liberdade de expressão e de imprensa e, sinceramente, tenho certeza que muitos no Brasil fariam o mesmo. O que impressiona-me, no entanto, é que ninguém cobra a responsabilidade da imprensa sobre seus enunciados: é como se imprensa fosse aqueles meninos mimados que podem tudo e devem nada.

a fuvest e o rei do camarote

Em 2005, a FUVEST fez um mea culpa com tema de redação sobre o movimento de descatracalização da vida, pois o próprio vestibular é uma catraca quase intransponível para o acesso à universidade. esse ano, mais uma vez, o tema segue a mesma orientação: debater sobre a camarotização da sociedade e lembrar que a universidade pública é um dos camarotes mais confortáveis e exclusivos.

redação da fuvest

A proposta de redação deste ano da Fuvest parece seguir uma tendência desse vestibular e criar uma espécie de trilogia. Espero não estar vendo pelo em ovo, mas de 2007 para cá os temas propostos podem ser divididos em três grandes questões:

inexorável

Tenho que cá para mim que a função de um vestibular pode ser muito mais do que um processo seletivo. A influência dessa prova na vida dos estudantes é imensa. Desde o primeiro ano do Ensino Médio até o último dia do terceiro, a preocupação com o vestibular é contínua, ininterrupta e intensa.

meio irônico

A Clarah Averbuck 

(http://claraaverbuck.com.br/)é uma escritora que deixou de sê-la. Aparentemente, acho. Deixei de acompanhá-la quando ela resolveu dedicar-se aos reallity shows e a uma banda de rock. Entretanto, ela escreveu um livro que merece ser lido, relido e respeitado, o Máquina de Pinball. Nele, há uma passagem interessante:

a não neutralidade em sala de aula

No dia 02 de novembro, não sei se muitos prestaram atenção, mas o G1 postou uma notícia interessante: "Universitário se recusa a fazer trabalho sobre Marx e escreve carta" [http://goo.gl/CDTHt9]. Nélson Rodrigues sempre dizia que, se pudesse planejar suas últimas palavras, diria: "que boa besta era o tal de Karl Marx". Particularmente, discordo de sua opinião (talvez a única que eu discorde. se bem que a intenção do Nélson era outra. enfim, discutirei depois), acho a teoria marxista viva, muito discutida e pouco estudada. A ideia não é, entretanto, falar sobre Marx.

o ódio à inteligência e o elogio ao brucutu

Como é de praxe, a tradição brasileira é de fazer dos livros calço para mesas tortas. Vivemos um país em que a sabedoria adquira na atividade prática, na realidade sensível, é a única valorizada. O conhecimento vindo de um cabo de enxada é mais valorizado do que o conhecimento vindo de um livro.

gêneros do discurso e responsabilidade nas manifestações

Depois de quase, acredito eu, três semanas de andarilhagens, é necessário uma pausa. Devemos sentar à sombra de uma mangueira, refletir sobre o que fizemos, os caminhos que percorremos e planejar os que ainda precisam ser pecorridos. É necessário que refresquemos do calor das manifestafestações, que tomemos uma cerveja e que pensemos: o que aconteceu? e agora? e depois?